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Introdução:
É evidente a existência de uma lacuna na formação e no modelo de
atuação do psicólogo no Brasil. Refiro-me ao vazio cristalizado e
encoberto ao longo da história da psicologia brasileira no que diz
respeito, principalmente às formas de intervenção psicológica para
além das paredes de um consultório particular.
Não pretendo afirmar que esse vazio seja exclusividade de nosso país,
nem tampouco que não se configure também no interior da prática clínica
em âmbito privado. Afinal, o psicólogo é um profissional em busca dos
contornos de sua identidade, entendendo identidade como um processo em
permanente construção.
Abordei recentemente este tema (DURAN, 1997), destacando a necessidade
de construir modalidades substitutivas de atendimento em psicoterapia no
contexto da rede pública de saúde, movida pela preocupação com a
pertinência das formas de intervenção tradicionalmente propostas
diante da demanda em saúde mental da população atendida em nível
primário.
Os desafios envolvidos na construção destas práticas inovadoras
despertaram minha atenção para a necessidade da pesquisa e experimentação
contínuas de atitudes e estratégias terapêuticas também
desafiadoras, capazes de fornecer subsídios que fertilizem a intervenção
psicológica. Isto se faz necessário, principalmente nos contextos
institucional e comunitário que transcendem a clínica particular, e em
especial, ao nos defrontarmos com populações mais desfavorecidas sócio-economicamente.
Não podemos negar que o encontro do psicólogo com seu suposto
"paciente" no âmbito dos mais diversos serviços públicos e
gratuitos de saúde mental, bem como no campo de comunidades tipicamente
marcadas pela opressão sócio-econômica, configura na maioria das
vezes uma aproximação, que propõe intimidade, entre membros de
diferentes classes sociais.
Boltanski refere-se à distância social existente entre o usuário de
um serviço de saúde e o profissional que o atende, em particular entre
o paciente e o médico, enfatizando que: "....(os membros das
classes populares) estão afastados dele (médico) pela distância
social que em qualquer eventualidade, separa um membro das classes
superiores altamente escolarizado e detentor de um saber específico, de
um membro das classes populares." (BOLTANSKI, 1989, p.134-135)
Construir um vínculo de confiança no vácuo dessa distância social e
cultural que atinge tanto o usuário quanto o profissional de saúde e
desenvolver estratégias terapêuticas que façam sentido na vida
quotidiana do primeiro é tarefa das mais árduas. Exige, antes de tudo,
tolerância para conhecer o outro em suas especificidades, de forma que
não haja precipitação e imposição de valores e principalmente não
se configure uma situação de "humilhação social".
GONÇALVES FILHO (1995) descreve o fenômeno da humilhação social como
uma modalidade de angústia que emerge a partir da desigualdade de
classes, modalidade esta que os pobres conhecem bem e que se inscreve no
cerne de sua submissão. Segundo ele, os pobres sofrem o impacto de maus
tratos e de mensagens implícitas quanto a sua inferioridade. Para eles,
a experiência da humilhação, seja em ato ou como realidade iminente,
sempre se faz presente através do sentimento de não possuírem
direitos, de parecerem desprezíveis e repugnantes, de se moverem e
falarem como seres que ninguém vê.
As diferenças sociais e culturais, então, constituem um fato que ao
invés de ser negado na prática psicológica precisa ser enfrentado e
explicitado junto ao outro. Isto pode se dar a partir da abertura de
canais de comunicação que possibilitem transcender e não, ao contrário,
justificar relações de poder, também frequentes, no vínculo
estabelecido entre psicólogo e paciente pertencentes ao mesmo universo
sócio-cultural.
Na trajetória como psicóloga atuando em instituições de saúde, tive
oportunidade de experimentar diversas modalidades no atendimento à
populações desprivilegiadas sócio-economicamente em busca de uma
"afinação" na comunicação e no vínculo estabelecidos.
O Método Organísmico de Pethö Sándor
Dentre as várias estratégias que utilizei neste contexto até o
momento, considero de particular importância aquelas derivadas do
"Método Organísmico" desenvolvido por Pethö Sándor.
Refiro-me ao método de trabalho proposto por SÁNDOR (1982) cuja matriz
foi o procedimento por ele designado como Calatonia.
A Calatonia consiste, no que se refere à sequência básica original,
de uma forma de condicionamento sutil e monótono que utiliza a
sensibilidade cutânea iniciando por meio de toques leves nos dedos dos
pés, no calcanhar, na convergência tendinosa do tríceps sural na região
posterior da perna e finalizando com um toque na região da nuca.
Os efeitos do método calatônico de acordo com seu idealizador, não
devem ser esperados a priori, mas podem consistir na obtenção de um tônus
corporal mais solto e descontraído de um modo peculiar a cada indivíduo
e em consonância com o meio circundante.
No método calatônico acredita-se na ocorrência de um
"ajuste" espontâneo do organismo, de uma "regulação do
tônus" no sentido de maior flacidez ou rigidez muscular e de maior
ou menor ampliação da consciência pelo aflorar de conteúdos
inconscientes de acordo com a necessidade e com a possibilidade de cada
indivíduo.
Fica claro, portanto, que a calatonia, e suas ampliações, não se
tratam simplesmente de técnicas e muito menos de técnicas de
relaxamento, mas compõem um método de regulação de tônus em seu
sentido mais amplo. Estou me referindo à repercussão desse método
sobre o modo de ser e de estar no mundo de um organismo que não apenas
tem um corpo, mas é corpo. Então, tal repercussão nem sempre vai
coincidir com efeitos agradáveis e relaxantes, visto que tal método
incide sobre a complexidade e as contradições que têm lugar nesse
organismo.
Assim é que, ao invés de nomear a proposta de Sándor simplesmente
como método calatônico, estou designando-a como método organísmico,
uma vez que tal método norteia-se pelos princípios da orientação
organísmica assumida pelo referido autor que resultaram, entre outros
aspectos, na constituição do corpo teórico por ele batizado como
Psicologia Organísmica.
A Psicologia Organísmica concebe o ser humano enquanto totalidade
bio-psico-social, ou numa só palavra, enquanto organismo. Dessa
perspectiva, qualquer forma de abordagem ao ser humano atingí-lo-á em
sua totalidade, mobilizando reações globais e multidimensionais no
organismo e promovendo novos condicionamentos ou recondicionamentos
fisio-psíquicos e sociais.
Quando tal abordagem envolve o contato direto entre seres humanos como
no caso de um relacionamento psicoterapêutico, torna-se evidente o
processo de ressonância bipessoal, de transformação mútua que se
concretiza nesse encontro, particularmente ao se estabelecer uma interação
física diferenciada no campo terapêutico, como acontece, por exemplo
numa psicoterapia conduzida pelo método organísmico.
A composição de um método repousa sobre três vertentes principais:
uma metodologia de investigação, um corpo teórico e um conjunto de técnicas.
O Método Organísmico de Sándor reúne as seguintes proposições:
· Metodologia de Investigação: Metodologia fenomenológica de observação
e análise qualitativas em que o conhecimento e a intervenção se
constróem no campo da intersubjetividade, da interação corporal e da
interdisciplinaridade.
· Corpo Teórico: Psicologia Organísmica
· Conjunto de Técnicas: Técnicas Organísmicas, de Regulação de Tônus
que podem ser divididas em:
· Técnicas Organísmicas Corporais: Técnicas densas ou sutis, ativas
ou passivas, individuais ou grupais que se referenciam diretamente ao
corpo, incluindo ou não a realização de toques.
· Técnicas Organísmicas Expressivas ou Imaginativas: Técnicas que
permitem expressar pelo corpo com a intermediação de variadas estratégias
expressivas ou imaginativas, individuais ou grupais - desenhos,
modelagem, dramatizações, imaginações dirigidas, etc. - as experiências
vividas, ampliando imagens que emergiram espontaneamente em sonhos ou em
estado de vigília, vinculadas ou não à realização de técnicas
organísmicas corporais.
A complexidade e a abrangência do Método Organísmico permitem que
nele se fundamentem diversas estratégias terapêuticas -
reconstrutivas, suportivas, de promoção de saúde, pedagógicas e
outras - cuja utilização não se restringe ao campo da psicologia,
abrangendo diversas áreas do conhecimento, tais como: medicina,
fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e outras. Por outro
lado, tal método abarca contribuições de diversas disciplinas e
orientações teóricas, tais como: a Cinesiologia Psicológica, a
Psicologia Analítica de Jung, a Psicologia de W. Reich e outras.
Essa amplitude proporciona uma liberdade teórica e metodológica que não
deve ser confundida com um ecletismo descompromissado, uma vez que toda
proposta inserida no Método Organísmico será reconstruída e
conduzida a partir dos princípios da orientação organísmica.
SÁNDOR (1982) aponta para o risco envolvido quando o terapeuta tende a
assumir uma atitude unilateral diante do paciente e restringe de forma
inconsciente sua intervenção à determinada teoria, ou a uma técnica
específica ou à determinada esfera da existência humana. Ainda que
inevitavelmente tenhamos que realizar recortes no campo em que
pretendemos intervir, temos que fazê-lo de forma consciente e atentando
para a mobilização multidimensional inevitável e espontânea dos
organismos envolvidos.
A Construção de uma Proposta Substitutiva de Atendimento em Saúde
Mental
Ao longo de minha atuação no campo da saúde pública em Unidades Básicas
de Saúde, percebi que, ao conduzir as estratégias terapêuticas pelo Método
Organísmico, deu-se uma transformação qualitativa nos processos
desenvolvidos e nos resultados obtidos. Os instrumentos teóricos e técnicos
vinculados ao referido método, bem como a atitude assumida diante da
pessoa a ser atendida afinaram-se de forma exemplar à demanda
apresentada pela população usuária deste tipo de instituição.
O discurso e a demanda exibidos pelos usuários no contexto de uma
Unidade Básica de Saúde (U.B.S.) são permeados por um dinamismo
institucional no qual a figura do médico e a vivência do processo saúde-doença
consistem no referencial básico para a vinculação dos pacientes à
qualquer proposta de atendimento. Impera, nesse local, uma linguagem,
verbal ou não, em que predominam descrições e explicações sobre
aspectos, patológicos ou não, dos corpos dessas pessoas.
O médico é o profissional mais procurado por essa população na
U.B.S., sendo as vagas oferecidas muito disputadas e sendo esse o
profissional que consultam em primeiro lugar quando "algo não está
bem".
Diante do profissional, entretanto, frequentemente se calam, ou pouco
falam, não se sentindo livres para desenvolver um discurso sobre as
manifestações de seu corpo. Restringem-se àquilo que lhes é
perguntado pelo "doutor", até porque "o tempo é
curto". Nas entrelinhas de seu silêncio, entretanto revelam
sofrimentos que são registrados, mas na maioria das vezes, não
devidamente acolhidos pelo médico.
São justamente esses pacientes que manifestam "algo" que não
pode ser diagnosticado e muito menos tratado pelo médico que tendem a
ser encaminhados por esse profissional para o Serviço de Saúde Mental
da U.B.S.; pessoas que vêm nos procurar "porque não tem
nada", nada que pudesse ser manipulado pelo saber médico.
O psicólogo entra no processo de atendimento a esses usuários numa
lacuna deixada pela legitimidade do conhecimento médico, para dar conta
do "nada", do que não é dito por palavras, mas que se
concretiza de algum modo no corpo.
Esta não é a única forma pela qual chegam os usuários ao Serviço de
Saúde Mental da U.B.S., mas talvez seja uma das mais comuns. Há
pessoas que são encaminhadas por outros profissionais ou por conhecidos
e ainda há aquelas que procuram espontaneamente o serviço, seja para
si ou para seus familiares.
De qualquer forma, ao se oferecer ao usuário da U.B.S. uma oportunidade
de ser ouvido, como na entrevista psicológica, surge, com maior frequência
do que se poderia imaginar, o tema do corpo e suas manifestações.
Expressa-se esse tema, em inúmeras queixas trazidas por estas pessoas
que ainda são designadas, na prática clínica, como "psicossomáticas",
embora esse termo indique a dualidade e a dissociação que pretendemos
aos poucos transcender. Na verdade, todas as manifestações humanas são
a um só tempo físicas e psíquicas, diferenciando-se apenas quanto à
área em que as reações associadas às mesmas tornam-se mais
evidentes; sendo assim todas elas seriam "psicossomáticas" e
não somente aquelas que se manifestam predominantemente no corpo.
Essas pessoas falam sobre inúmeras formas de dores que "andam pelo
corpo", de "batedeiras no coração", de "enrolações
e fermentações nas carnes", de "zonzeiras e parafusos soltos
na cabeça", entre outras "manifestações corporais".
Relatam também, frequentemente, a vivência de situações que
denominei (DURAN, 1997) como episódios de "exploração
corporal", ou seja, experiências que inscrevem "marcas"
no corpo a partir de uma história de exploração e alienação social:
doenças ocupacionais, acidentes de trabalho, fome, espancamento, violência
sexual e outros.
Gostaria de salientar que toda e qualquer experiência humana "é"
social e não é apenas "determinada socialmente"; o corpo é
sempre construído e reconstruído socialmente e sendo assim, os corpos
de todos os indivíduos são sociais e, portanto, são marcados
socialmente de alguma forma. Mas qual seria a forma pela qual os
referidos usuários, tendo vivido episódios de empobrecimento em algum
momento de sua trajetória social, apresentam "manifestações
corporais", psíquicas e sociais, ao se inserirem no contexto da
Unidade Básica de Saúde ?
Tal população traz o corpo como uma área de manifestação maciça de
aspectos em evidência em sua dinâmica psíquica e em sua forma de
inserção social. A maioria dos usuários que utiliza a U.B.S. traz de
forma mais clara no corpo, a expressão de suas condições de vida e de
seu sofrimento psíquico, mesmo que esta relação não seja por eles
percebida.
Isto quer dizer que, ao chegar ao Serviço de Saúde Mental, essa população
dificilmente fala sobre conflitos e complexos psicológicos, como talvez
esperássemos ouvir, enquanto especialistas que somos. No caso desses
usuários, podemos notar até um certo distanciamento da dimensão
psicológica, ao menos na forma pela qual nos habituamos a representá-la,
segundo nossas concepções "científicas" acerca do
sofrimento psíquico. Quando eles reconhecem este tipo de sofrimento - o
psíquico, buscam geralmente explicações "neuro-fisiológicas"
(problemas no cérebro ou nos nervos), ou "espirituais"
(possesão, obsessão), para o mesmo.
Encontram-se ainda aqueles usuários que assimilando conteúdos,
representações e códigos de interpretação mais próximos aos
nossos, apropriaram-se de forma diferenciada dos mesmos, tendendo, então,
a psicologizar suas experiências pessoais e sociais, utilizando termos
que fazem parte de uma "linguagem psicológica". Mas, ao longo
da minha experiência, estes têm sido minoria.
Diante deste distanciamento, ou desta reconstrução do conceito que
temos sobre a dimensão psicológica, ousamos ainda considerar estas
atitudes peculiares a uma determinada população como mecanismos
defensivos, ou seja, como resistência exibida por essas pessoas frente
a conteúdos psíquicos que não podem ser assimilados por sua consciência.
Fico pensando se, da mesma forma que foi acima descrito com relação ao
saber médico, o saber psicológico que queremos impor aos nossos
pacientes, não funciona também como um "cala boca", de
maneira que estes não conseguem mais se expressar de forma autêntica
sobre o sofrimento que lhes moveu a procurar o atendimento em saúde
mental, restando aos mesmos, o revelar-se através do corpo, campo que
ficou de certa maneira protegido deste dinamismo paralisante.
A proposição de qualquer intervenção em saúde mental a um
determinado usuário, deve passar, portanto, por uma análise bastante
ampla das questões acima levantadas e muitas vezes não fará sentido
para determinada pessoa, não apenas por uma questão de resistência
psicológica, mas antes por uma disparidade ideológica entre o
profissional e o usuário.
Pude constatar muitas vezes, a configuração de um verdadeiro
"abismo" entre minhas concepções sobre o processo saúde-doença
e minha forma de expressão e os conceitos e estilos expressivos
exibidos pela população que eu atendia nas referidas instituições.
Foi a partir daí que resolvi iniciar o desenvolvimento de uma prática,
regida pelo Método Organísmico que pudesse vir a substituir a ênfase
na elaboração verbal que até então havia caracterizado as estratégias
terapêuticas por mim conduzidas.
O Método Organísmico concretiza e transforma a "linguagem
corporal" comumente utilizada pelos usuários de um serviço de saúde
mental, ao enfatizar a dimensão corporal como via privilegiada de
acesso ao inconsciente.
As evidências apontam para a possibilidade de se obter a partir do Método
Organísmico, o fortalecimento do vínculo de confiança entre
profissional de saúde e usuário, a promoção de um recondicionamento
físio-psíquico vinculado à maior conscientização e ampliação da
imagem corporal e da auto-estima dos usuários, além de maior abertura
ao contato social. Evidenciam-se, também, sutis modificações no modo
desses indivíduos refletirem sobre o contexto sócio-econômico e
cultural em que estão inseridos e de agirem nesse contexto,
destacando-se o despertar ou o resgate da capacidade laborativa e do
potencial criativo dos mesmos.
Tenho constatado a configuração de indícios das referidas transformações
em períodos breves de atendimento, correspondendo em média, ao
decorrer de um ano. Observo também, uma tendência à redução
considerável dos índices de evasão aos atendimentos regidos pelo Método
Organísmico.
Uma Proposta de Integração entre O Método Organísmico de Sándor e a
Modalidade Grupal de Atendimento
A combinação do Método Organísmico com a modalidade grupal de atenção,
particularmente no campo da psicoterapia, reveste-se de um caráter
especial para os usuários da UBS.
Ao propor que essas pessoas se reunam em grupo para o desenvolvimento de
alguma intervenção terapêutica que envolva o Método Organísmico,
apesar do "susto" inicial e da configuração de mecanismos
defensivos típicos ao se inserir um indivíduo em contexto grupal,
constela-se uma situação complexa e inexplicável, porém, de
particular riqueza em que se efetuam trocas afetivas intensas entre os
envolvidos.
A modalidade grupal de terapia não deve ser aplicada simplesmente para
satisfazer exigências de determinada instituição; só se justifica
sua utilização como alternativa terapêutica no atendimento a
determinada população, se puder atender às necessidades da mesma em
alguma medida.
Ponderando sobre as peculiaridades da modalidade terapêutica grupal
frente às particularidades culturais e psicológicas da população a
ser atendida nas instituições públicas, BEZERRA JR. (1994) refere
que:
.....colocado entre pares, o paciente poderá exprimir os sentimentos e
cotejar sua experiência com um conjunto de pessoas que compartilham com
ele do mesmo universo sócio-cultural. A palavra do parceiro do grupo,
talvez contenha maior plausibilidade, isto é, talvez possa veicular
modelos de identificação mais próximos, mais apreensíveis, do que o
oferecido pelo terapeuta. (p.167).
Segundo esse autor, no encontro entre um terapeuta e seus pacientes numa
instituição pública, tende a se configurar uma relação assimétrica,
calcada principalmente nas diferenças quanto à inserção social dos
mesmos, sendo o primeiro inevitavelmente percebido não só como
representante da ciência, mas também como membro de uma classe social
hierarquicamente superior.
Considera o autor que a inserção deste tipo de pacientes em grupos
tende a dissipar essa assimetria, na medida em que pode conduzir os
integrantes do grupo, inclusive o terapeuta, a buscarem outras referências
além daquelas justificadas pela ciência e veiculadas pelo mesmo ao
grupo. A principal responsabilidade do terapeuta, desse ponto de vista,
seria a manutenção das regras do enquadre terapêutico.
Parece, entretanto, que esta suposta democratização do saber e do
poder no campo terapêutico grupal não são suficientes para garantir
uma vinculação consistente desses pacientes a qualquer grupo. Existe
também formas de interdição na comunicação entre membros que
pertencem supostamente a uma mesma classe social. Dentro de um mesmo
grupo, há indivíduos que correspondem aos hábitos e expressões linguísticas
mais comuns naquele universo sócio-cultural e outros que se afastam em
diferentes graus dos mesmos, situando-se nas zonas mais fronteiriças
daquele campo de acordo com as trajetórias psicossociais que
percorreram, eles e seus ascendentes, até aquele momento.
Este pode ser um dos muitos fatores a explicar o porquê ocorrem tantas
desistências, mesmo quando se realizam as tão louvadas intervenções
grupais com essa população. O estabelecimento de vínculos de confiança
entre indivíduos é questão bastante complexa em qualquer situação,
particularmente num campo permeado por tanta ambigüidade como o terapêutico.
BEZERRA JR. (1994) fala sobre a necessidade de aprimorar também as
formas de atendimento grupais, tentando adequá-las às necessidades e
peculiaridades deste tipo de população, ou seja, não é possível
considerar que a modalidade grupal em si, ou qualquer outra, seja sempre
e de qualquer forma suficiente para dar conta da demanda de determinada
população.
Ao acoplar a modalidade grupal de atendimento ao Método Organísmico na
condução das estratégias terapêuticas, algo se modificou. A
modalidade grupal e o referido método juntos, amplificam o gérmen de
transformação inerente ao campo terapêutico, enriquecendo-se
mutuamente e sendo ambos sensíveis às peculiaridades dessa população.
A dimensão corporal parece ser uma vertente extremamente fértil no
processo de simbolização dessas pessoas, trazendo ao campo terapêutico
grupal a possibilidade de transcender as interdições que ainda restam
no estabelecimento de uma comunicação entre esses indivíduos neste
contexto tão intrincado.
O modelo básico de intervenção grupal que adotei correponde em linhas
gerais, ao descrito por BEZERRA JR. (1994), segundo o qual o terapeuta
seria essencialmente o elemento aglutinador, o fornecedor e mantenedor
das regras de comunicação no grupo.
Segundo o autor:
O terapeuta não lidará sempre com o grupo enquanto indivíduo
coletivo, como uma entidade autônoma com relação a seus membros; pelo
contrário, procurará de modo geral, recortar cada indivíduo dentro do
grupo com sua história, seu movimento na sessão, o conteúdo que
apresente e permitir com sua atuação que esse material seja
confrontado, com aquele que é trazido pelos parceiros e seja objeto de
elaboração por parte deles, a partir de seus códigos de interpretação,
os quais, como já se observou, nem sempre se coadunam com os do
terapeuta. (p. 168).
Neste sentido, conduzo a modalidade grupal de atenção, de forma a
lidar com os indivíduos no grupo, realizando concomitantemente o
processo de psicoterapia do grupo como um todo quando for possível e
necessário. Isto significa dizer que faço vários recortes no processo
grupal, desde aqueles que se dirigissem da experiência individual para
a grupal ou, ao contrário, do grupo para o indivíduo.
A forma de organização do grupo para a realização das experiências
corporais depende da dinâmica emergente em cada grupo em determinado
momento, sendo possível propor que as pessoas se reunam em duplas,
trios, ou todas ao mesmo tempo. Pode ainda ocorrer, a proposição de
experiências corporais que permaneçam centradas em um único paciente,
ou ainda de vivências corporais a serem realizadas individualmente no
grupo.
Muitas outras formas de experiência corporal podem ser construídas ao
longo do processo grupal, seja a partir das proposições do terapeuta,
ou daquelas provenientes de outros membros do grupo que têm ampla
liberdade quanto à participação ou não nas mesmas.
Quanto à dinâmica de realização das técnicas de Regulação de Tônus
no contexto grupal, parto de experiências corporais mais autocentradas
e individualizadas, como as que envolvem experiências de observação
do próprio corpo, ou de auto toques, para outras voltadas ao corpo do
outro e envolvendo mais o grupo como um todo. É interessante que o ato
de tocar seja experimentado aos poucos, e não introduzido de forma
abrupta no campo grupal, sendo que as técnicas mais sutis devem ser
introduzidas depois de uma certa vivência com técnicas mais ativas e
"densas", como os exercícios de respiração e movimento, ou
ainda, as manobras básicas de massagem.
São raros os terapeutas corporais de orientação organísmica que
trabalham com grupos e muito mais raros aqueles que escrevem sobre essa
questão quer na perspectiva da Psicologia Organísmica, ou mesmo da
Psicologia Junguiana - uma das principais matrizes teóricas do Método
Organísmico.
No que concerne ao campo da Psicologia Analítica, HALL (1986) refere
que a terapia de grupo ainda é controversa em muitos círculos
junguianos. Jung, ao que parece, jamais experimentou uma terapia de
grupo processual, mas parecia achar, segundo o autor, que a modalidade
grupal de análise não poderia substituir a individual. De acordo com
Hall, Jung tomava por base para tecer essa concepção acerca da
modalidade grupal de atendimento, sua experiência em grupos sociais não
estruturados, nos quais, segundo ele, as pessoas agiam com menos consciência
do que revelavam individualmente.
JUNG (1961) ao discutir a condição do indivíduo na sociedade moderna,
refere que:
A sociedade tem, naturalmente o direito incontestável de precaver-se
contra os subjetivismos notórios, porém, desde que a própria
sociedade é composta de pessoas desindividualizadas, está
completamente à mercê dos individualistas implacáveis. Deixai-a
juntar-se em grupos e organizações a seu gosto - e é exatamente esse
agrupamento com a resultante extinção da personalidade individual que
a faz sucumbir tão depressa a um ditador. (p.66).
Vemos nesta colocação, o quanto Jung se preocupava em proteger a
integridade do indivíduo diante da pressão social para que este se
conformasse ao grupo.
HALL (1986) considera que a psicoterapia grupal, não é de forma alguma
um substituto da análise individual, mas, segundo ele uma combinação
entre psicoterapia grupal e individual parece fazer algumas pessoas avançarem
com maior rapidez ao longo do processo de crescimento e compreensão do
que qualquer modalidade sozinha.
O autor também coloca que o trabalho de grupo pode se converter num
poderoso instrumento de modificação do autojulgamento negativo
excessivamente rígido, ao mesmo tempo em que pode ajudar a pessoa a
desenvolver uma auto-estima realista.
MINDELL (1991) trabalha com terapia de famílias e casais e considera
que o relacionamento é um dos canais, mas não o único, pelo qual o
indivíduo se realiza, assim como este último é somente um dos canais
para a expressão da mensagem grupal. Ele refere que assim como cada
grupo tem tantos tipos de expressão quantos forem seus membros, cada
pessoa tem seus vários modos de percepção e expressão.
No campo da Psicologia Organísmica, a integração da modalidade grupal
de atendimento às técnicas organísmicas corporais e
expressivas-imaginativas é um processo em construção ao qual pretendo
fornecer algumas contribuições a partir da experiência vivida no
acompanhamento de grupos de psicoterapia no contexto institucional.
O Corpo no Grupo e o Corpo do Grupo
O grupo é também um organismo, é encarnado, ou seja, é corpo e
psique ao mesmo tempo. Porém, o grupo não pode ser entendido como mera
projeção do dinamismo físio-psíquico individual ao campo grupal, uma
vez que o contexto grupal compõe uma forma particular de ser e estar
que transcende a soma ou a ampliação das configurações individuais.
O grupo é o terceiro ponto entre o eu e o outro, aquela zona limítrofe
em que as percepções, as imagens, as sensações se interpenetram e ao
mesmo tempo se diferenciam, criando novas composições. O grupo é um
estado contínuo de arte - de criação e de destruição, de integração
e desintegração de diferentes formas de existir e de se expressar. É
o campo de ensaio cotidiano das relações humanas.
O grupo é um corpo que se movimenta em espiral, retornando sempre ao
ponto de origem, porém, sendo outro a cada volta completada. Oscila
desesperadamente entre pólos de um mesmo fenômeno, confrontando-se e
fugindo, fundindo-se e se discriminando, destruindo-se e se
transformando, sombreando e iluminando.
O grupo é um corpo que pode se configurar como um continente propício
para a vivência e elaboração das mais diversas dores e delícias
humanas, como um "caldeirão" em que essas experiências serão
"cozidas ao ponto". Portanto, é um corpo ao qual muitas vezes
serão atribuídos "poderes mágicos", como se nele pudessem
se "exorcizar todos os demônios".
O grupo é um corpo social que traz as marcas das condições sócio-econômicas
e culturais que engendraram o encontro e a história de vida das pessoas
que o constituem e que na mesma medida pode revelar essas marcas e
propor transformações nessas condições, dando sentido e
reconstruindo histórias.
O grupo é um corpo que sonha; traz símbolos oníricos a seu campo,
seja através da expressão corporal, de sonhos ou de imagens
individuais, ou de seu próprio fluir corporal e onírico.
O grupo é um corpo que dança, mas essa história não sei contar, só
sei dançar.
Sei contar a história de grupos formados por pessoas que lutam para
sobreviver, pessoas que tem seus corpos marcados pela exploração no
trabalho, pela violência doméstica, pela invisibilidade social, pela não
garantia dos cuidados básicos de saúde, entre outros aspectos. Porém,
aprendi com essas pessoas que é possível "renascer das
cinzas", principalmente quando encarnamos num corpo grupal
acolhedor que faz emergir nossas potencialidades, sombrias e criativas.
Conheci pessoas que só se permitiam sentir o corpo quando adoeciam ou
sentiam dores, experiências que as impossibilitavam de trabalhar
fazendo assim com que prestassem atenção em si e fossem buscar ajuda.
Ao dar oportunidade a essas pessoas de resignificarem suas experiências
no grupo terapêutico através das vivências corporais promovidas pelo
Método Organísmico, tive oportunidade de observar transformações
multidimensionais e significativas na vida das mesmas.
Refiro-me à possibilidade de perceberem que o corpo também é fonte de
prazer, prazer de gostar de si mesmo, de cuidar de sua beleza, de sua saúde,
de trocar carinhos e de superar dores.
O corpo inserido num grupo acolhedor e tocado com respeito e amor pode
despertar o terapeuta interno que há em cada pessoa, acolhendo suas
limitações e deficiências e mostrando, através do próprio
padecimento, o caminho da cura quando for possível.
O corpo no grupo é pele, é mãe que acolhe e toca a pele, é vida em
transformação, é o corpo do grupo.
Bibliografia:
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SÁNDOR, Pethö et al. - Técnicas de relaxamento. 4.ed., São Paulo,
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