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Vários leitores me escrevem estranhando que a
mesma palavra filosofia seja empregada nos mais diversos sentidos, desde
a acepção pejorativa de "lero-lero" até a de
"conhecimento absoluto". Poderia dizer que a filosofia é o
homem com todas as suas verdades e contradições, com todos os seus
erros e enganos, impulsos e esperanças, dúvidas e certezas, temores e
angústias, mas isso seria contornar o problema. Prefiro socorrer-me da
fantasia.
Uma coisa é indiscutível: filosofia significa sempre conhecimento,
falso ou verdadeiro, duvidoso ou positivo. Hoje em dia, paradoxalmente
se restabelece o antigo conceito de "conhecimento universal",
até o ponto de falar-se tanto de "filosofia divina" como de
"filosofia da empresa" ou "filosofia do futebol".
É possível que a primeira das cogitações filosóficas tenha nascido
da idéia da morte como mistério, revelado por alguma divindade,
identificando-se filosofia com religião. Durou milênios essa
identidade até se reconhecer que a filosofia é obra do próprio homem
perplexo ante os imprevistos da vida e as ameaças da natureza. Daí a
cogitação sobre a origem e a formação do que existe; sobre o segredo
da inércia ou do movimento, e , a mais angustiosa de todas as
perguntas: que resta após a morte? Tais problemas nos situam na raiz da
filosofia, não sendo meu propósito, no presente artigo, fazer referência
a qualquer nome de filósofo ou às teorias dos maiores pensadores.
Sobreveio, a seguir, a idéia de totalidade como
explicação de tudo o que há, nada ficando fora do Uno, do
absolutamente abrangente, a que o homem devia reverência como sua fonte
e origem. Depois, deu-se passagem do Uno para o Ser, o que por todas as
formas existe, inclusive como ser humano. Foi momento decisivo na história
da filosofia.
Pensemos na filosofia como uma árvore gigantesca, cujas raízes se
afundam até o limite último do ser. De início, só se percebeu o
tronco daquilo que é e não pode deixar de ser. Depois, à medida que o
pensamento e a meditação se desenvolviam, foram surgindo os galhos, os
ramos, as folhas e os frutos, de uns se dizendo que continuavam
eternamente ligados às raízes originárias; de outros se proclamando
que eram autônomos ou autárquicos, livres e senhores do próprio
destino, enquanto de outros se sorria, duvidando-se do próprio existir.
À sombra dessa árvore, desenvolveram-se as ciências, ou seja, os
conhecimentos ceertos e positivos, deles se dizendo, de início , que
somente eram ciências enquanto fossem "formas de conhecimento
filosófico", distintos uns dos outros em razão de seus fins ou
objetivos.
Mas nem mesmo essa árvore do Ser se livrou da sanha dos lenhadores que,
esquecidos de suas origens, tentaram em vão modos rachá-la e destruí-la,
alguns deles pretenciosamente convictos de terem podado todos os ramos e
galhos podres da metafísica, da ética ou da estética, para somente
sobrar o tronco de aço brunido das ciências positivas...
Mais engenhosa e poderosa foi outra iniciativa do homem: não a de
destroçar a árvore do Ser, mas a de dizer que a verdadeira filosofia
consiste em indagar de seu sentido e significado.
Surgia assim a filosofia como crítica da crítica,
ou seja, como investigação sobre a possibilidade de se falar sobre
problemas como os acima referidos.
Na filosofia moderna não prevalece mais a idéia da árvore do Ser,
predominando a indagação e a hermenêutica, a procura do que é necessário
para o bem do homem e sobretudo para que ele possa realizar-se em sua
plenitude. Pode-se dizer que com essa reviravolta, a árvore do Ser
passou a ser a árvores do Homem, desprendendo-se de suas antigas raízes,
notadamente das de inspiração divina.
E daí em diante se multiplicaram os ramos e os galhos, de conformidade
com o sentido toamdo, pela filosofia, como vias múltiplas do saber,
como crítica do saber e sobre o que fazer com o que se sabe.
Numa dessas linhas, mais apegadas às origens, foi dito que o ideal do
saber está em si mesmo, no processo contínuo da descoberta da verdade,
por nada existir de mais alto do que a verdade em si, seja ela
religiosa, ética, estética, ou , finalmente, como ciência positiva,
tanto no plano da natureza como no plano da cultura. Neste último ramo
o homem se envaideceu com sua própria imagem, contemplando-se como se
fora um deus terreno. Aliás, com isso se volvia, por outras vias, ao
primitivo saber como contemplação, que aproximava a filosofia da
religião oriental.
Surgiu, assim, para muitos, o ideal, não da erudição,
do acúmulo de saber sem limites, mas sim o da sabedoria, ponto mais
alto que pode atingir a criatura humana: é aquele que por si só já
representa um prêmio, situando-se o ser humano na linha do divino,
afrontando o desafio de conhecer-se a si mesmo.
Mas, como o homem é um ser que não pode parar, que é essencialmente
histórico porque vive em perpétuo movimento, surgiu também outro
caminho: o do caminho mesmo, isto é, o caminho da história. Passou-se
a viver a filosofia como processo, como invenção imprevisível. Foi
desse poderoso ramo que se desprendeu outro não menos portentoso, o da
filosofia da ação e dos benefícios que dela se esperam.
Nós estamos em plena era pragmática, mas, paradoxo dos paradoxos, a ação
está nos levando novamente ao domínio do conhecimento, da comunicação
e da informação.
Para tanto, a filosofia por intermédio de uma de
suas ramificações ( e são tantas!), abre de par em par as portas da
tecnologia, do mundo dos robôs, com a inteligência artificial, tudo
para que o homem se torne cada vez mais senhor de si mesmo e do cosmo.
O grande mistério do milênio que se inicia está, mais uma vez, na
filosofia e não na ciência. É que tudo vai depender de descobrir o
ramo do saber que esteja em sintonia com a felicidade o bem estar do
Homem, por mais que se sorria da árvore do Ser e da Vida. Eis aí, meu
caro leitor, a que levou a minha fantasia em torno do sentido da
filosofia, ao fazer a temerosa pergunta: para onde vamos?
Nascida da perplexidade, ante os desafios do problema e do mistério, a
filosofia continua na sua eterna tarefa: a de perguntar. E, se algum
consolo podemos ter, talvez ele consista em se saber que, "em
filosofia a verdade está menos nas respostas do que nas
perguntas".
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