O Mundo da Filosofia - Miguel Reale
 

 Vários leitores me escrevem estranhando que a mesma palavra filosofia seja empregada nos mais diversos sentidos, desde a acepção pejorativa de "lero-lero" até a de "conhecimento absoluto". Poderia dizer que a filosofia é o homem com todas as suas verdades e contradições, com todos os seus erros e enganos, impulsos e esperanças, dúvidas e certezas, temores e angústias, mas isso seria contornar o problema. Prefiro socorrer-me da fantasia.
Uma coisa é indiscutível: filosofia significa sempre conhecimento, falso ou verdadeiro, duvidoso ou positivo. Hoje em dia, paradoxalmente se restabelece o antigo conceito de "conhecimento universal", até o ponto de falar-se tanto de "filosofia divina" como de "filosofia da empresa" ou "filosofia do futebol".
É possível que a primeira das cogitações filosóficas tenha nascido da idéia da morte como mistério, revelado por alguma divindade, identificando-se filosofia com religião. Durou milênios essa identidade até se reconhecer que a filosofia é obra do próprio homem perplexo ante os imprevistos da vida e as ameaças da natureza. Daí a cogitação sobre a origem e a formação do que existe; sobre o segredo da inércia ou do movimento, e , a mais angustiosa de todas as perguntas: que resta após a morte? Tais problemas nos situam na raiz da filosofia, não sendo meu propósito, no presente artigo, fazer referência a qualquer nome de filósofo ou às teorias dos maiores pensadores.

Sobreveio, a seguir, a idéia de totalidade como explicação de tudo o que há, nada ficando fora do Uno, do absolutamente abrangente, a que o homem devia reverência como sua fonte e origem. Depois, deu-se passagem do Uno para o Ser, o que por todas as formas existe, inclusive como ser humano. Foi momento decisivo na história da filosofia.
Pensemos na filosofia como uma árvore gigantesca, cujas raízes se afundam até o limite último do ser. De início, só se percebeu o tronco daquilo que é e não pode deixar de ser. Depois, à medida que o pensamento e a meditação se desenvolviam, foram surgindo os galhos, os ramos, as folhas e os frutos, de uns se dizendo que continuavam eternamente ligados às raízes originárias; de outros se proclamando que eram autônomos ou autárquicos, livres e senhores do próprio destino, enquanto de outros se sorria, duvidando-se do próprio existir.
À sombra dessa árvore, desenvolveram-se as ciências, ou seja, os conhecimentos ceertos e positivos, deles se dizendo, de início , que somente eram ciências enquanto fossem "formas de conhecimento filosófico", distintos uns dos outros em razão de seus fins ou objetivos.
Mas nem mesmo essa árvore do Ser se livrou da sanha dos lenhadores que, esquecidos de suas origens, tentaram em vão modos rachá-la e destruí-la, alguns deles pretenciosamente convictos de terem podado todos os ramos e galhos podres da metafísica, da ética ou da estética, para somente sobrar o tronco de aço brunido das ciências positivas...
Mais engenhosa e poderosa foi outra iniciativa do homem: não a de destroçar a árvore do Ser, mas a de dizer que a verdadeira filosofia consiste em indagar de seu sentido e significado.

Surgia assim a filosofia como crítica da crítica, ou seja, como investigação sobre a possibilidade de se falar sobre problemas como os acima referidos.
Na filosofia moderna não prevalece mais a idéia da árvore do Ser, predominando a indagação e a hermenêutica, a procura do que é necessário para o bem do homem e sobretudo para que ele possa realizar-se em sua plenitude. Pode-se dizer que com essa reviravolta, a árvore do Ser passou a ser a árvores do Homem, desprendendo-se de suas antigas raízes, notadamente das de inspiração divina.
E daí em diante se multiplicaram os ramos e os galhos, de conformidade com o sentido toamdo, pela filosofia, como vias múltiplas do saber, como crítica do saber e sobre o que fazer com o que se sabe.
Numa dessas linhas, mais apegadas às origens, foi dito que o ideal do saber está em si mesmo, no processo contínuo da descoberta da verdade, por nada existir de mais alto do que a verdade em si, seja ela religiosa, ética, estética, ou , finalmente, como ciência positiva, tanto no plano da natureza como no plano da cultura. Neste último ramo o homem se envaideceu com sua própria imagem, contemplando-se como se fora um deus terreno. Aliás, com isso se volvia, por outras vias, ao primitivo saber como contemplação, que aproximava a filosofia da religião oriental.

Surgiu, assim, para muitos, o ideal, não da erudição, do acúmulo de saber sem limites, mas sim o da sabedoria, ponto mais alto que pode atingir a criatura humana: é aquele que por si só já representa um prêmio, situando-se o ser humano na linha do divino, afrontando o desafio de conhecer-se a si mesmo.
Mas, como o homem é um ser que não pode parar, que é essencialmente histórico porque vive em perpétuo movimento, surgiu também outro caminho: o do caminho mesmo, isto é, o caminho da história. Passou-se a viver a filosofia como processo, como invenção imprevisível. Foi desse poderoso ramo que se desprendeu outro não menos portentoso, o da filosofia da ação e dos benefícios que dela se esperam.
Nós estamos em plena era pragmática, mas, paradoxo dos paradoxos, a ação está nos levando novamente ao domínio do conhecimento, da comunicação e da informação.

Para tanto, a filosofia por intermédio de uma de suas ramificações ( e são tantas!), abre de par em par as portas da tecnologia, do mundo dos robôs, com a inteligência artificial, tudo para que o homem se torne cada vez mais senhor de si mesmo e do cosmo.
O grande mistério do milênio que se inicia está, mais uma vez, na filosofia e não na ciência. É que tudo vai depender de descobrir o ramo do saber que esteja em sintonia com a felicidade o bem estar do Homem, por mais que se sorria da árvore do Ser e da Vida. Eis aí, meu caro leitor, a que levou a minha fantasia em torno do sentido da filosofia, ao fazer a temerosa pergunta: para onde vamos?
Nascida da perplexidade, ante os desafios do problema e do mistério, a filosofia continua na sua eterna tarefa: a de perguntar. E, se algum consolo podemos ter, talvez ele consista em se saber que, "em filosofia a verdade está menos nas respostas do que nas perguntas".